Michael Jackson, Thriller

Como o Rei do Pop e seu videoclipe revolucionário marcaram uma geração de crianças e adolescentes nos anos 1980.



Uma infância, muitas descobertas musicais

Esta matéria é um relato afetivo de um momento especial da minha infância, naquela fase de transição para a adolescência. Uma lembrança que merece ser compartilhada com você, leitor, que acompanha a Rádio 90’s Macapá para desfrutar de histórias nostálgicas e conhecer um pouco mais sobre os acontecimentos que marcaram outras épocas.

O ano era 1982. Ainda me lembro daquele período em que, aos oito anos de idade, era aluno da 1.ª série do 1.º grau da Escola de 1.º Grau José do Patrocínio. Naquele ano, a Seleção Brasileira de Futebol havia sido eliminada da Copa do Mundo da Espanha. Foi difícil conter a tristeza, as lágrimas e aquele entalo na garganta. Para uma criança apaixonada por futebol e com o patriotismo no coração, ver uma seleção recheada de craques ser eliminada pela Itália foi doloroso. Mas a vida é um processo de construção, feito de derrotas e vitórias.

Artistas que fizeram parte da minha infância. Reprodução I.A.


Apesar da tristeza futebolística, minha infância era cercada por música. Eu já era bastante ligado aos sons que tocavam em casa. Cresci ouvindo Roberto Carlos, Patotinhas, As Melindrosas, Trio Los Angeles, The Beatles, Os Patinhos e tantos outros artistas que faziam parte do cotidiano musical daquela época.

Era de praxe ouvir rádio em casa e acompanhar os programas de televisão que apresentavam cantores e bandas. O Cassino do Chacrinha, por exemplo, era uma das atrações preferidas para conferir os artistas que estavam fazendo sucesso.

Mas uma experiência musical estava prestes a mudar minha maneira de enxergar os videoclipes.

Modelo do nosso televisor preto e branco a tubo, anos 1980. Imagem: Reprodução.


O dia em que Thriller entrou na minha vida

Em dezembro de 1983, durante uma noite de domingo, assistindo ao Fantástico – O Show da Vida, na TV Globo, aconteceu algo que jamais esqueci.

Era a exibição do videoclipe de lançamento de “Thriller”, do Rei do Pop, Michael Jackson.

Eu já havia assistido às chamadas do programa durante a semana, aquelas pequenas prévias que as emissoras utilizavam para despertar a curiosidade e garantir a audiência dos telespectadores. Mas ver o videoclipe completo foi uma experiência completamente diferente.

Para uma criança daquela época, acompanhar os efeitos especiais de Michael se transformando em lobisomem, passo a passo, era algo impressionante. E havia ainda a cena arrepiante em que a atriz que interpretava sua namorada gritava desesperadamente por socorro, enquanto a criatura parecia atacá-la.

Foi uma mistura de encantamento e medo!

A experiência ficou tão marcada que passei uma semana assustado. Afinal, eu vivia em um lugar mais afastado da cidade, com poucas casas ao redor e muita vegetação e mata nas proximidades. À noite, bastava lembrar das cenas do videoclipe para sentir aquele frio na barriga. Dormir todo embrulhado no lençol, dos pés à cabeça, era quase uma obrigação!

Apesar do susto, o videoclipe foi simplesmente espetacular. Os efeitos especiais, a música, mesmo sem entender inglês, as coreografias e a interpretação de Michael Jackson eram impressionantes.

Valeu a pena ficar diante daquele televisor Philips em preto e branco, acompanhando cada minuto daquela produção cinematográfica. Naquele tempo, ter uma televisão em casa era um luxo, afinal, nem todas as famílias podiam contar com um aparelho desses.

Vídeo Oficial do Thriller.

Um presente que virou trilha sonora da infância

No dia seguinte, meu irmão Márcio Antonio, que trabalhava na fazenda da minha madrinha e estudava na cidade de Macapá, chegou de surpresa trazendo um compacto de Thriller.

Lembro perfeitamente da capa diferenciada do disco e daquele material analógico que guardava quatro músicas: “Thriller”, “Beat It”, “Billie Jean” e “Human Nature”. Dentro da capa  um pequeno vinil, e a contra capa com as letras das canções e informações sobre aquela obra que entraria para a história da música mundial. 

Foi uma alegria enorme!

Era sagrado colocar o disco para tocar diariamente na nossa vitrola Taterka, em volume alto. E, claro, a festa musical quase sempre terminava com os ralhos da minha saudosa Vovó Maroca, que não suportava o volume estourado do aparelho de som. As vezes, eu pegava a capa e olhava a contracapa e começava a "cantar" o inglês feito um puro português enrolado.

O tempo passou, a tecnologia mudou e os discos de vinil deram espaço aos CDs e às novas formas de ouvir música. Mas a minha ligação com aquela obra continuou. Em 2018, decidi adquirir o CD Thriller, de Michael Jackson, trazendo novamente para minha coleção um álbum que havia marcado profundamente minha infância. Era como reencontrar um velho amigo, agora em outro formato, mas com a mesma magia de quando ouvi aquelas músicas pela primeira vez na nossa vitrola Taterka.

Compacto Thriller: "Meu irmão Márcio Antonio comprou um para nós". Imagem: Reprodução Rádio 90's Macapá/I.A.

Mas quem conseguia resistir àquela sequência de sucessos?

Depois daquela experiência, assistir ao Clip Clip, da Rede Globo, aos sábados, tornou-se quase um compromisso. O programa, com sua seleção de videoclipes de artistas e bandas do pop e do rock mundial, era uma oportunidade de acompanhar as novidades e, principalmente, rever os trabalhos de Michael Jackson.

A TV Equatorial também passou a exibir, frequentemente, videoclipes do artista durante os intervalos comerciais. Não apenas as músicas do álbum Thriller, mas também os sucessos do trabalho anterior, Off the Wall (1979), como “Rock with You” e “Don't Stop 'Til You Get Enough”.

Era Michael Jackson por todos os lados!

Meu Cd Thriller compadro em 2018.


A febre Michael Jackson e a influência sobre uma geração

Em 1983 e nos anos seguintes, a febre Michael Jackson tomou conta do mundo. O sucesso de Thriller, impulsionado também por “Billie Jean” e “Beat It”, consolidou o artista como um dos maiores fenômenos da cultura pop.

No Brasil, tornou-se cada vez mais comum encontrar apresentações de covers e imitadores do cantor. Revistas especializadas em música traziam matérias especiais sobre sua carreira, seus figurinos, suas coreografias e os videoclipes que revolucionavam a televisão.

Os programas musicais também ajudavam a alimentar a rivalidade entre os fãs. Na TV Bandeirantes, o radialista e apresentador Barros de Alencar comandava o Menudo Mania, atração exibida aos sábados à noite, que promovia a disputa entre Michael Jackson e o grupo porto-riquenho Menudo.

Outro destaque era o Super Especial, apresentado por Serginho Caffé, também na Bandeirantes. O programa promovia a escolha do videoclipe da semana. Primeiro, eram exibidos um vídeo do Menudo e outro do Rei do Pop. Depois, o público votava em seu preferido. No encerramento, o vencedor era anunciado, com o resultado da votação, e o videoclipe completo voltava à tela para a apreciação dos telespectadores.

Era uma verdadeira disputa de popularidade, que movimentava os fãs e transformava a televisão em ponto de encontro de diferentes gerações de admiradores.


Reportagem do Globo Reporter sobre o Michael Jackson.

O Rei do Pop também tinha seus imitadores em Macapá

E por aqui, em Macapá, não foi diferente. Michael Jackson também virou fenômeno entre crianças e adolescentes.

Lembro do Joandro, um amigo que veio de Curitiba com seu pai, Renê (em memória), para morar em Macapá, estabelecendo-se aqui em Fazendinha.

Ele começou a imitar Michael Jackson e aproveitou a habilidade que já havia desenvolvido com os movimentos do break para reproduzir as coreografias do artista.

Seu talento acabou rendendo participações no Macapá Verão e em outros eventos abertos ao público. Joandro ficou conhecido entre nós como um dos melhores imitadores do talentoso Michael Jackson.

Eu? Bem, não sabia dançar e muito menos imitar o Rei do Pop. Mas sempre tive vontade de ser como ele, subir em um palco, atrair um grande público e impressionar todo mundo com aqueles movimentos espetaculares.

Fiquei apenas na vontade! Mas, para mim, cada aparição do astro na televisão já era motivo de satisfação.

Thriller: música, terror e a magia do Halloween

Com o passar dos anos, “Thriller” deixou de ser apenas uma música de sucesso e se transformou em uma referência cultural associada ao Halloween.

A combinação de terror, monstros, zumbis, maquiagem, efeitos especiais e coreografias fez do videoclipe uma produção que ultrapassou os limites da música. Michael Jackson conseguiu transformar uma canção em uma experiência audiovisual que continua despertando curiosidade e admiração.

E essa influência não ficou restrita ao seu tempo. Outras produções musicais também exploraram essa atmosfera sombria, sobrenatural e misteriosa que ajudou a tornar Thriller tão especial.

Entre os exemplos que merecem lembrança estão “Das Omen (Teil 1)”, do projeto alemão Mysterious Art, lançado em 1989, e “In My Dreams”, do grupo Darkness, de 1994. São músicas de épocas posteriores que também encontraram espaço nesse universo de sonoridades sombrias e referências ao imaginário do terror.

LP Mysterous Art - The Omen (1989). Divulgação.


Décadas depois, a coreografia dos zumbis continua sendo reproduzida em festas, apresentações, eventos temáticos e comemorações de Halloween. A jaqueta vermelha, os passos de dança e aquela transformação assustadora permanecem vivos na memória coletiva.

Para mim, Thriller é como um bom vinho envelhecido: o tempo passa e a obra continua conquistando novos admiradores. Também é como um carro antigo que todo mundo gostaria de ter na garagem. No caso, um disco que merece lugar de destaque em qualquer discoteca.

E pensar que tudo começou com um menino de oito anos, diante de uma televisão Philips em preto e branco, que ficou encantado e assustado ao mesmo tempo com um videoclipe de mais de 13 minutos!

Poderia continuar falando sobre o Rei do Pop, sua trajetória, seus sucessos e sua contribuição para a música mundial. Mas essa história fica para outra matéria especial.

Afinal, em 1987, Michael Jackson voltaria a surpreender o mundo com o álbum Bad.

Até lá, que tal aumentar o volume e reviver a magia de Thriller?

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