Kenny G – Montage: as histórias por trás das 14 faixas

De Mandala a Wall Street, passando por versões brasileiras e até um recorde mundial: redescobrimos as histórias escondidas em Montage



Há discos que são simplesmente coletâneas. E há aqueles que, quando a gente começa a pesquisar, parecem esconder pequenas portas para outras épocas.

É o caso de Montage, de Kenny G.

O CD que temos em mãos reúne 14 faixas que passeiam por diferentes momentos da carreira do saxofonista, principalmente entre 1985 e 1989. E, no meio delas, encontramos novelas, cinema, versões brasileiras, grandes vocalistas, um ator de Hollywood, um recorde mundial e até uma música que mudou de lado na história: estava no lado B de um single e acabou se transformando em um dos maiores sucessos da carreira do artista.

Pronto. Agora a nossa viagem começa.

Kenny G durante a fase que consolidou sua carreira internacional nos anos 1980. Imagem: Divulgação.



Antes de Montage, quem era Kenny G?
O que existe dentro desse Montage?
1. Songbird — Duotones (1986)
2.  Silhouette — Silhouette (1988)
3. Don’t Make Me Wait for Love — Duotones (1986)
4. Midnight Motion — Duotones (1986)
5. Tradewinds — Silhouette (1988)
6. What Does It Take (To Win Your Love) — Duotones (1986)
7. Against Doctor’s Orders — Silhouette (1988)
8.  Virgin Island — Gravity (1985)
9.  Pastel — Silhouette (1988)
10. Last Night of the Year — Gravity (1985)
11.  Going Home — Kenny G Live (1989)
12. Let Go — Silhouette (1988)
13. You Make Me Believe — Duotones (1986)
🇧🇷 Quando Kenny G encontrou o Brasil
14 faixas - 4 álbuns -  uma viagem pelos anos 80. 



O mapa de Montage
1985 — Gravity
→ “Virgin Island”
→ “Last Night of the Year”


1986 — Duotones
→ “Songbird”
→ “Don’t Make Me Wait for Love”
→ “Midnight Motion”
→ “What Does It Take”
→ “You Make Me Believe”

1988 — Silhouette
→ “Silhouette”
→ “Tradewinds”
→ “We’ve Saved the Best for Last”
→ “Against Doctor’s Orders”
→ “Pastel”
→ “Let Go”


1989 — Kenny G Live
→ “Going Home”


Não era apenas música para ouvir
E afinal, o que Montage nos conta?
Lembra desse disco?

A edição brasileira de Montage reúne 14 faixas — incluindo dois bônus no final. Foto: Arquivo pessoal.




Kenny G — Montage

🎷 KENNY G — MONTAGE
🎧 Dê o play e deixe a memória fazer o resto...

Uma coletânea que acabou se transformando em uma pequena máquina do tempo.

Nascido Kenneth Bruce Gorelick, em Seattle, em 1956, Kenny G começou sua carreira profissional ainda jovem e encontrou no saxofone uma maneira muito particular de dialogar com o público.

Mas foi durante os anos 1980 que seu nome começou a ganhar uma dimensão muito maior.

O álbum Duotones, de 1986, seria decisivo nessa trajetória. A sonoridade instrumental, melódica e acessível ajudou a aproximar o saxofone de um público enorme, colocando Kenny G entre os grandes nomes do chamado smooth jazz.

E Montage aproveita justamente esse período para montar sua retrospectiva.

A edição brasileira que temos como referência é uma edição em CD catalogada em 1992, pela Arista, com 14 faixas. As duas últimas — “Let Go” e “You Make Me Believe” — aparecem como bônus.

Mas o mais interessante não é simplesmente listar as músicas.

É descobrir de onde cada uma veio e o que aconteceu com elas pelo caminho.

Começamos por uma das músicas mais importantes da carreira de Kenny G.

“Songbird” nasceu em Duotones e acabou se tornando um de seus grandes sucessos.

E no Brasil ela ganhou uma história especial: foi incluída na trilha sonora da novela Mandala, exibida pela Globo em 1987.

A música aparece creditada como tema romântico geral da novela.

Ou seja: para muita gente, talvez a primeira lembrança de “Songbird” nem esteja associada a um CD importado ou a uma parada americana.

Está associada à televisão brasileira.

E isso muda completamente a memória de uma música.

Aqui temos a faixa que dá nome ao álbum Silhouette, lançado em 1988.

O disco chegou ao Top 10 da Billboard 200 e alcançou o primeiro lugar na parada de jazz contemporâneo.

“Silhouette” representa bem aquele Kenny G que já havia encontrado sua identidade: melodias fáceis de reconhecer, produção sofisticada e o saxofone ocupando o centro da narrativa.

Não é preciso muita coisa para entender por que aquele som encontrou tanto espaço nas rádios.

Aqui aparece outra colaboração vocal importante: Lenny Williams.

A música chegou ao 15º lugar da Billboard Hot 100 e ao 2º lugar da parada Adult Contemporary nos Estados Unidos.

Mas existe uma história ainda mais interessante escondida nessa faixa.

Quando “Don’t Make Me Wait for Love” foi lançada como single, “Midnight Motion” estava no lado B.

E aí acontece uma daquelas ironias deliciosas da história da música:

o que estava no lado B acabaria ganhando vida própria.

Essa é uma das minhas favoritas.

“Midnight Motion” também veio de Duotones e, anos depois, ganhou uma pequena participação na história do cinema.

A música aparece na trilha de Wall Street, filme de 1987 dirigido por Oliver Stone.

Imagine só: uma faixa instrumental de Kenny G atravessando do universo dos discos e das rádios para uma produção cinematográfica que se tornaria um retrato marcante da cultura financeira dos anos 1980.

E aqui está uma das coisas mais legais de Montage:

uma música do lado B de um single acabou dentro de um filme.

Nada mal para quem começou a história escondida atrás do lado A.

“Tradewinds” significa ventos alísios, aqueles ventos relativamente constantes associados às regiões tropicais.

O título já sugere uma paisagem: calor, mar, vento e tranquilidade.

E a sonoridade da faixa combina perfeitamente com essa imagem.

É uma daquelas músicas que não precisam de novela, filme ou grande acontecimento para funcionar.

Você coloca para tocar e deixa a imaginação fazer o resto.

Talvez uma praia apareça no meio do caminho.

Aqui Kenny G revisita uma composição que ficou conhecida originalmente na voz de Jr. Walker & The All Stars.

Na gravação de Kenny G, os vocais são de Ellis Hall.

Mas essa música guarda outra história importante.

Quando foi lançada em single, ela ocupava o lado A.

No lado B estava uma tal de...

“Songbird”.

Sim, a mesma música que depois apareceria em Mandala e se transformaria em um dos maiores sucessos de Kenny G.

É como se Montage tivesse sido montado com peças de um mesmo quebra-cabeça.

Essa aqui ganhou uma história visual bem divertida.

O videoclipe oficial, lançado em 1989, contou com a participação do ator e comediante britânico Dudley Moore, interpretando um médico.

O título — “Contra as ordens do médico” — já dava margem para uma brincadeira.

E o videoclipe aproveitou a ideia.

Mais uma demonstração de que Kenny G já não estava restrito ao universo dos discos instrumentais: sua música também recebia tratamento de produto pop, com videoclipes e participações de artistas conhecidos.

Essa faixa nos leva ainda mais para trás, até Gravity, de 1985.

E daqui sai uma das histórias mais impressionantes da carreira de Kenny G — embora não tenha relação direta com a composição.

Em 1997, o saxofonista entrou para o Guinness World Records ao sustentar uma única nota, Mi♭, durante 45 minutos e 47,77 segundos, utilizando a técnica de respiração circular.

Respiração circular não significa simplesmente “não respirar”.

A técnica permite ao músico inspirar pelo nariz enquanto mantém o fluxo de ar no instrumento.

Uma façanha tão absurda que chega a parecer coisa de filme.

Mas aconteceu de verdade.

“Pastel” faz parte de Silhouette e representa bem o lado mais delicado da produção de Kenny G naquele período.

É uma faixa para ouvir com atenção aos detalhes: o saxofone, os teclados, a percussão discreta e toda aquela construção sonora característica do final dos anos 1980.

E talvez seja justamente isso que explique a longevidade daquele repertório.

Não era música para disputar atenção. Era música para criar atmosfera.

Outra viagem a Gravity.

“Last Night of the Year” é uma obra instrumental e pertence a uma fase anterior ao grande salto comercial que viria com Duotones.

Ouvindo hoje, dá para perceber um Kenny G ainda construindo o caminho que o levaria à enorme popularidade dos anos seguintes.

É quase como olhar uma fotografia anterior à fama.

E aqui encontramos outra ponte direta com a música brasileira.

“Going Home”, composta por Kenny G e Walter Afanasieff, ganhou no Brasil uma versão com letra em português chamada “De Onde Vem?”.

A música foi gravada por Zélia Cristina, nome utilizado por Zélia Duncan no início da carreira, no álbum Outra Luz, de 1990.

A adaptação recebeu letra de Orlando Morais.

Ou seja:

uma composição instrumental de Kenny G atravessou o caminho até a música brasileira e ganhou uma nova história em português.

É exatamente o tipo de descoberta que faz valer a pena abrir novamente um CD guardado há tantos anos.

“Let Go” volta ao álbum Silhouette e, na edição brasileira de Montage, aparece como faixa bônus.

Musicalmente, encontramos novamente aquela combinação de saxofone, teclados e arranjos suaves que ajudou a definir a sonoridade de Kenny G nos anos 1980.

Nada de grandes efeitos.

É simplesmente mais uma pequena janela para aquele período.

E chegamos a outra faixa bônus.

“You Make Me Believe” veio de Duotones e conta com Claytoven Richardson nos vocais principais.

Esse detalhe é interessante porque ajuda a desmontar uma ideia muito comum sobre Kenny G: a de que seu trabalho era simplesmente “um homem tocando sax”.

LP Montagem, compilação internacional. Imagem divulgação e adaptação com I.A.


Por trás daqueles discos havia produção, arranjos, músicos convidados e, em várias gravações, cantores dividindo o espaço com o saxofone.

Talvez essa seja uma das partes mais gostosas dessa pesquisa.

Porque Montage não ficou preso aos Estados Unidos.

Suas músicas circularam por outros caminhos e encontraram novas interpretações por aqui.

“Songbird” chegou à televisão brasileira através de Mandala.

“We’ve Saved the Best for Last”, originalmente de Silhouette, ganhou no Brasil a versão “Não Faz Sentido”, gravada pelo Placa Luminosa.

E “Going Home” ganhou letra em português e virou “De Onde Vem?”, registrada por Zélia Cristina.

É aí que uma coletânea deixa de ser simplesmente uma coletânea.

Ela passa a ser um documento de circulação musical.

Se organizarmos as faixas pelo álbum de onde vieram, percebemos que o nosso CD funciona praticamente como uma pequena linha do tempo:

E a edição brasileira que temos em mãos reúne tudo isso em um único CD.

Talvez seja difícil explicar para quem não viveu aquela época o tamanho que esse tipo de música tinha no cotidiano.

Kenny G combinava perfeitamente com programas românticos, horários noturnos, momentos a dois e aquelas seleções musicais que ajudavam a criar o clima de uma época.

Não era necessariamente uma música que pedia pista de dança.

Era música que pedia momento.

Um rádio ligado.

Uma fita tocando.

Um CD girando.

Uma luz mais baixa.

Uma lembrança chegando sem avisar.

E talvez seja exatamente por isso que tanta gente reconhece uma música de Kenny G mesmo sem lembrar imediatamente o nome.

Depois de toda essa viagem, fica difícil enxergar Montage apenas como uma coletânea.

Ele é quase um álbum-memória.



Cada faixa aponta para outro lugar:

um álbum de 1985, um sucesso de 1986, um videoclipe de 1989, uma novela brasileira, um filme de Hollywood, uma versão em português, um vocalista convidado ou até um recorde mundial.

E tem uma coisa que me faz gostar ainda mais desse CD.

Ele ficou anos quietinho na minha coleção, esperando a pergunta:

“Quando será que vamos fazer uma matéria sobre ele?”

Bom...

Chegou a hora.

Hoje, quando colocamos Montage para tocar, não estamos simplesmente ouvindo Kenny G.

Estamos ouvindo um pedaço dos anos 80 voltar pelo alto-falante.

E talvez seja essa a verdadeira função de um disco antigo:

não deixar a memória parada.

Rádio 90’s Macapá — Desbloqueando a sua memória.

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