Viação Progresso: A Empresa que Marcou a Transição do Transporte Coletivo em Macapá nos Anos 90
Entre nostalgia, crescimento urbano e transformação social, a Viação Progresso se tornou um dos maiores símbolos do transporte coletivo amapaense na década de 1990.
A história do transporte coletivo em Macapá é formada por empresas que não apenas movimentaram passageiros, mas ajudaram a construir a memória urbana da capital amapaense. Entre elas, a inesquecível Viação Progresso ocupa um lugar especial.
Mais do que uma operadora de ônibus, a empresa simbolizou a transição entre o modelo tradicional de gestão familiar local e a chegada dos grandes grupos empresariais interestaduais ao Amapá.
Durante os anos 1990, seus ônibus percorreram ruas ainda em expansão, conectando bairros, aproximando pessoas e acompanhando uma cidade que crescia em ritmo acelerado. Neste especial da Rádio 90’S Macapá, revisitamos a trajetória, os desafios e o legado de uma das empresas mais emblemáticas do transporte coletivo amapaense.
A Fundação da Viação Progresso e a Visão de Júlio Pereira
O início da década de 1990 foi um período delicado para a mobilidade urbana de Macapá. A falência da tradicional Viação Cassiporé deixou lacunas importantes no sistema de transporte coletivo da capital.
Foi nesse contexto que surgiu Júlio Maria Pinto Pereira, empresário apaixonado pelo setor de transporte urbano. Em 1993, ao lado de um sócio local, fundou a Viação Progresso com a proposta de reorganizar parte das linhas deixadas pela antiga operadora e devolver estabilidade ao sistema.
A identidade visual da empresa rapidamente chamou atenção da população. Os ônibus adotavam pintura branca com uma marcante faixa verde-abacate horizontal e o nome da empresa em vermelho-vinho — uma referência sutil às cores da antiga Cassiporé, preservando simbolicamente a memória do transporte coletivo da cidade.
Frota e Operação: O Desafio de Modernizar o Transporte Urbano
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| Ônibus Thanco, Padrão Scorpion, um dos modelos utilizados pela Viação Progresso no transporte de passageiros em Macapá. |
A Viação Progresso iniciou suas atividades operando com uma frota mista, formada por veículos usados e modelos recém-adquiridos. Entre eles estavam os conhecidos Condor da Ciferal Paulista e modelos mais modernos da Thanco, como os Falcão e Scorpion, considerados avançados para o período.
Inicialmente, a empresa operava com cerca de 15 ônibus distribuídos em linhas estratégicas da capital.
Linha Fortaleza
Responsável pela ligação entre o Bairro Pacoval, na Zona Norte, e o Igarapé da Fortaleza, na Zona Sul, atravessando importantes corredores urbanos da cidade.
Linha Universidade/Centro
Atendia estudantes da UNIFAP, além dos bairros Congós e Muca, consolidando-se como uma das linhas mais movimentadas da época.
A atuação da empresa representou um importante passo na reorganização do transporte urbano de Macapá em um período de crescimento populacional acelerado.
A Reconfiguração do Sistema de Transporte em 1993
Em outubro de 1993, mudanças estratégicas alteraram significativamente a dinâmica da mobilidade urbana da capital.
Com a criação da linha Novo Horizonte, o sistema passou por uma divisão operacional baseada em zonas geográficas.
Zona Norte
Atendida principalmente pela linha Novo Horizonte, cobrindo bairros como Jardim Felicidade, São Lázaro e Pacoval.
Zona Sul/Centro
A linha Fortaleza passou a operar de forma reduzida, concentrando o trajeto entre o Igarapé da Fortaleza e o Centro, via Fazendinha e Beirol.
A medida aumentou a frequência de ônibus em regiões específicas, mas também consolidou o sistema de baldeação em Macapá. Muitos passageiros passaram a utilizar dois coletivos para realizar deslocamentos completos entre as extremidades da cidade.
Essa reorganização marcou uma nova fase do transporte coletivo amapaense.
A Crise Administrativa e o Impacto da Perda de Júlio Pereira
Entretanto, a trajetória da empresa sofreu um duro golpe com a morte prematura de seu fundador, Júlio Pereira, vítima de malária.
A perda do empresário abalou profundamente a estrutura administrativa da Viação Progresso. A partir de 1995, sob nova direção, a empresa passou a enfrentar dificuldades operacionais e financeiras cada vez mais evidentes.
A ausência de experiência técnica no setor de transporte coletivo, somada aos problemas de fluxo de caixa, afetou diretamente a manutenção da frota e a qualidade do serviço prestado à população.
Gradualmente, os veículos começaram a apresentar desgaste operacional, enquanto a empresa mergulhava em um processo de fragilização administrativa que marcaria seus últimos anos de atuação em Macapá.
A Cultura dos Anos 90 Dentro dos Ônibus
Falar da Viação Progresso também é revisitar a atmosfera cultural dos anos 90 em Macapá.
Muito além do transporte urbano, os ônibus da época funcionavam como verdadeiras trilhas sonoras ambulantes da juventude amapaense. Nos rádios, o Eurodance dominava as viagens com sucessos de artistas como 2 Unlimited, Haddaway, Double You, Ice MC e AB Logic.
Ao mesmo tempo, a cultura amazônica permanecia fortemente presente no cotidiano da população.
O mestre Pinduca seguia mantendo o carimbó em alta, enquanto a Banda Nova animava festas, programações populares e eventos tradicionais do estado.
Em Macapá, Kzan Nery vivia um de seus períodos de maior popularidade, embalando rádios, danceterias e sedes sociais com os álbuns Nega Princesa (1993) e Sedução (1994).
Era uma época em que música, transporte coletivo e cotidiano urbano se misturavam naturalmente, criando memórias afetivas que permanecem vivas até hoje na lembrança de milhares de amapaenses.
O Amapá Entre 1993 e 1996
Enquanto a Viação Progresso cruzava as ruas da capital, o Amapá vivia um período intenso de transformações políticas, culturais e esportivas.
Na política, João Alberto Capiberibe assumia o Governo do Estado, enquanto o médico e político Papaléo Paes comandava a Prefeitura de Macapá.
Na cultura, o lendário festival “Em Busca do Sol” caminhava para seus capítulos finais, consolidando-se como um dos maiores movimentos musicais alternativos da Amazônia.
Já no esporte, o futebol profissional amapaense realizava apenas seu terceiro campeonato oficial, demonstrando que o estado ainda estruturava suas competições profissionais naquele período.
O Legado da Viação Progresso
Em 1996, a Viação Progresso foi incorporada pelo grupo da Viação Barbarense, do interior de São Paulo, dando origem à futura Viação Macapá.
Mesmo com uma trajetória relativamente curta, a empresa deixou uma marca profunda na memória coletiva dos amapaenses. Seus ônibus fizeram parte da rotina de milhares de passageiros, acompanharam a expansão urbana da capital e testemunharam uma das fases mais importantes da modernização do transporte coletivo local.
Décadas depois, a lembrança da Progresso ainda desperta nostalgia em quem viveu aquela época.
Mais do que transportar passageiros, a empresa ajudou a conectar histórias, bairros, gerações e memórias que permanecem vivas na identidade urbana de Macapá.
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