A GALERA DA BIKE: UMA HISTÓRIA DE AMIZADE, LIBERDADE E MUITA MÚSICA!
Era 1996. Mais precisamente o segundo semestre daquele ano inesquecível. Foi nesse cenário que surgiu, no Distrito de Fazendinha, em Macapá, uma galera diferente — uma turma que, sem saber, começava a escrever uma das histórias mais marcantes de uma geração. Logo ficaríamos conhecidos como a “Galera da Bike”.
No começo, éramos apenas jovens querendo andar de bicicleta e se divertir. Nada muito diferente do que se vê hoje… ou melhor, quase nada. Tire dessa conta os capacetes estilosos, luzes piscantes, roupas coladas e bicicletas que custam uma fortuna para rodar na mesma velocidade de quem está a pé. Sem críticas — cada um vive sua época. Mas ali, em 1996, o que existia era aventura, improviso e descoberta.
A juventude de Fazendinha vivia uma transição curiosa: deixávamos para trás a famosa “poperon” para mergulhar no universo das bikes.
🚴♂️ DOIS MUNDOS SOBRE RODAS
Antes de seguir, vale entender essa diferença:
1. A Bicicleta Poperon:
Era a clássica Caloi barra forte, com aquele círculo no meio do quadro. Mas não era só isso — a criatividade mandava: selim alto e fino, enfeites por todos os lados, “olhos de gato”, bandeirinhas… uma verdadeira árvore de Natal ambulante. Chamativa, barulhenta e cheia de personalidade.
2. A Bike:
Ah… a evolução! Mountain bikes da Caloi, modernas, leves, de alumínio, com marchas (que nem todo mundo sabia usar, diga-se de passagem). Era tecnologia pura para a época — um salto de nível.
E foi nesse contexto que tudo começou.
🎓 O COMEÇO DE TUDO
Ganhei minha primeira bike ao me formar no magistério pelo saudoso IETA. Presente da minha mãe (e não, eu não sou um burguês safado! kkkk). E não era qualquer presente — era algo caro, que eu sempre dizia que queria ter.
Quando fui escolher, bastou olhar: moderna, bonita… e soltei a clássica frase:
“Essa, mãe!”
E pronto. Ali começava minha história com a Galera da Bike.
Saí pedalando por Fazendinha, todo perdido, sem saber trocar marcha, sem noção de nada… mas cheio de vontade. Com a conclusão do curso de magistério, ganhei seis meses de “passe livre” para vadiar antes de encarar a realidade do mundo adulto e arrumar um trabalho honesto.
Foi nesse período, nas minhas pedaladas noturnas, que tudo mudou.
👥 OS PRIMEIROS ENCONTROS
Comecei a me entrosar com alguns amigos que conhecia da Escola José do Patrocínio, onde fiz meu 1º grau. Cada um seguiu seu rumo, mas havia algo em comum: vivíamos o mesmo mundo sobre duas rodas.
O primeiro foi meu finado amigo Adinelson Lima (que Deus o tenha em bom lugar!), o eterno “Bonitinho”. Ele sim entendia tudo de bike — trabalhava na oficina Biciclo, do amigo Bira.
Foi ele quem me disse que eu precisava lubrificar a bike (nem isso eu sabia), ensinou como trocar marchas corretamente e qual a melhor configuração para ganhar desempenho. Ele me ensinou o básico… e o avançado também.
Depois vieram outros nomes que marcaram época:
Boró, marajoara trabalhador; Cabo Rosa, gente boa e bem entrosado; e o Nego, irmão da Celi e parceiro para todas as horas.
Cada um com seu estilo, mas todos com algo em comum: a paixão pelas bikes — e o Bonitinho como elo de união.
Eu? Andava de short, camisa velha e chinelo de dedo. Um verdadeiro hippie sobre rodas.
🌙 A PRIMEIRA AVENTURA
— “Vamos dar uma volta na Fortaleza!”
Respondi na hora:
— “A galera de lá não gosta da gente! (Fazendinha e Fortaleza sempre tiveram uma rusga braba.)”
E ele, sem pensar duas vezes:
— “Bora logo e para de frescura!”
E fomos.
A estrada entre Fazendinha e Fortaleza era escura, estreita, cheia de curvas e sem iluminação. E fomos devagar? Claro que não.
Era velocidade, adrenalina, faróis de carros cegando a visão… coração disparado. Ainda lembro do Bonitinho gritando:
— “Quando vier carro, baixa a cabeça! Se pegar luz na cara, fica cego e cai!”
O nervosismo se misturava com uma sensação única de liberdade — o vento no rosto e aquela ideia forte de pertencimento a um grupo.
E então… luz.
Chegamos. Um poste no início da ponte da Fortaleza iluminava o caminho, revelando a ligação entre Macapá e Santana.
Olhares desconfiados, tensão no ar… mas ficamos na nossa. Rodamos um pouco por lá e, como éramos aventureiros — e não doidos — resolvemos voltar.
Naquela noite, sem perceber, selamos algo maior que qualquer pedal:
uma amizade verdadeira.
Na volta, já em Fazendinha, ficamos conversando, rindo e contando bravatas de como “resolveríamos” se alguém da Fortaleza resolvesse mexer com a gente.
🌊 EXPANSÃO: NOVOS CAMINHOS, NOVAS HISTÓRIAS
Depois disso, as aventuras só aumentaram.
Passamos a fazer incursões noturnas até Santana — cerca de 10 km de distância. A Fortaleza já não era mais desafio para a Galera da Bike.
E foi nessa fase que surgiu nossa “marca”.
Como sempre, ideia do Bonitinho:
— “Vamos andar de calça de moletom, vai ficar bacana… e boné todo mundo já tem!”
E assim nasceu o visual oficial:
calça de moletom cinza clara e boné escuro.
A camisa ficava a gosto — ninguém tinha dinheiro pra fazer graça.
Mas esses dois itens eram sagrados.
Quando a gente saía rumo a Santana com aquele visual… na nossa cabeça, não tinha erro:
lá vem a Galera da Bike.
Também fazíamos passeios para balneários pela estrada de Macapá — coisa de 100 km, mais ou menos. Era quase um ritual.
Não importava a distância.
Importava estar juntos.
🎶 NOITES DE MÚSICA, BEBIDA E AMIZADE
E quando não estávamos pedalando… estávamos reunidos.
O ponto de encontro era um palanque do governo, usado nas programações do Macapá Verão, em julho. Aquele espaço simples virava nossa danceteria improvisada.
As noites eram embaladas por vinho Gallioto (ruim que até verme matava), cachaça da mais barata, risadas e muita música.
A gente conversava, sacaneava uns aos outros e ria até a barriga doer — principalmente lembrando das quedas nas pedaladas.
E quando o álcool começava a bater…
Entrava em cena o DJ da noite:
o finado Adinelson “Bonitinho”.
Sim… meio enjoadinho quando bebia, mas parceiro demais.
Totalmente bêbado — como todos nós — era ele quem comandava o som, com uma responsabilidade digna de profissional… mesmo sem nenhuma condição 😄
O equipamento? Um gravador portátil emprestado do Aquelton, o “Preto” (na época garçom do Praiano Bar, hoje advogado).
E a fita K7… já surrada, quase no fim da vida — mas guerreira.
🎧 Fita “Poperon” 😆
▶️ Lado A:
Sweet Dreams – La Bouche
Double You - Heart Of Glass
No Limit – 2 Unlimited
Netzwerk - Send Me An Angel
Ice MC - Take away the colour
AB Logic - The Hitman
🔁 Lado B:
Rhythm Is a Dancer – Snap!
The Rhythm of the Night – Corona
Mr. Vain – Culture Beat
Double You - Run To Me
Ice MC - Think About The Way
Quando a música começava, ninguém ligava pra mais nada.
Era só deixar rolar.
A gente dançava… e como dançava quando ficava muito porre!
Feio? Muito.
Mas com vontade, alegria e sem vergonha nenhuma (o álcool ajudava bastante 😄).
E tinha um detalhe que nunca mudava:
As bikes estavam sempre ali.
Encostadas ao lado, como se também participassem da festa.
Pra onde a gente ia… elas iam junto.
Porque, no fundo, não era só transporte.
Era o elo que nos unia.
❤️ O TEMPO PASSOU…
A Galera da Bike não acabou de uma vez.
Foi se dissolvendo aos poucos.
Vieram os trabalhos, as responsabilidades… alguns casaram, outros namoraram, e a atenção mudou de rumo. A vida adulta chegou — e o tempo começou a faltar.
Hoje, do grupo, ainda vejo o Boró, firme no time dos quarentões, batendo aquela bola com a galera da antiga.
Cabo Rosa sumiu no mundo.
O Nego foi embora de Macapá.
E o Bonitinho… está com Deus. Foi cedo demais.
Mas o que ficou… ficou pra sempre.
As pedaladas no escuro.
O medo misturado com coragem.
As risadas, a música, as quedas…
E, principalmente, a amizade.
Essas são eternas.
🔊 PORQUE É DISSO QUE A RÁDIO 90 FALA
A Rádio 90 nasceu justamente pra isso:
Desbloquear memórias.
Trazer à tona tudo de bom que vivemos.
E a Galera da Bike é uma dessas histórias.
Porque, no fim das contas…
não era só sobre andar de bicicleta.
Era sobre viver.
E ouvir boa música. 🎶🚲🔥
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