Meus embalos de Sábado à Noite: o glamour eterno da Boate Arena em Macapá
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Houve um tempo em que as noites de sábado em Macapá tinham endereço certo, trilha sonora marcante e um brilho que até hoje insiste em permanecer na memória de quem viveu aquela época. Falar da Boate Arena é revisitar um capítulo inesquecível da vida noturna da cidade — um verdadeiro símbolo de glamour, inovação e músicas dançantes que marcou gerações de jovens e adultos macapaenses. Foi ali, inclusive, que vivi a primeira de muitas noites memoráveis.
Inaugurada em 1997, a Boate Arena surgiu em um espaço carregado de história: o antigo Mercantil Cometa, empreendimento pertencente a Cláudia Góes, empresária de uma tradicional família amapaense que contribuiu significativamente para o desenvolvimento do Amapá ainda nos tempos de território federal.
A Arena foi idealizada pelo empresário Fábio Góes, filho de Cláudia, que enxergou naquele local a oportunidade de unir negócio, lazer e diversão por meio da dance music. No início dos anos 90, Fábio já era DJ e bastante conhecido na cena local pelas suas performances, pela potente estrutura de som e pelo estúdio Zoomp Gravações.
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| Onde funcionou a Arena, atualmente funciona a Donna. |
Segundo relatos da própria Cláudia Góes, por ter pouca experiência no ramo de casas noturnas, Fábio convidou o DJ Alain Cristophe — figura central e referência absoluta quando se fala em boates e festas eletrônicas no Amapá — para somar forças no projeto. Juntos, planejaram cada detalhe da Arena, acompanharam todas as etapas da construção e viajaram pelo Brasil em busca do que havia de mais moderno na época, especialmente em tecnologia de som e iluminação.
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| Fábio Góes (esquerda) e Alain Cristophe (direita). Foto: Alain Cristophe |
Com tudo pronto e aprovado dentro dos padrões exigidos, a Arena abriu as portas e rapidamente se tornou um fenômeno. Pessoas de diversos bairros de Macapá e também do município de Santana passaram a frequentar a casa. A mídia local não tinha dúvidas: havia nascido a danceteria mais moderna da cidade.
Curiosamente, apesar de toda essa fama, eu ainda não tinha conhecido a Arena nos seus primeiros anos — e convites não faltaram. Os obstáculos eram muitos, até que, três anos após a inauguração, o destino resolveu conspirar a favor.
Estava em uma festa escolar com um amigo quando ele sugeriu um simples “rolê” pela cidade. A noite ainda estava só começando. Mesmo sem dinheiro no bolso, aceitei. No meio do caminho, veio a pergunta inevitável:
— Tu já foi na Arena?
Respondi que não. E foi assim, apenas com um carro e muita coragem, que seguimos até lá.
Ao chegar, fiquei hipnotizado pela fachada imponente. A logomarca com dois leões chamava atenção e o movimento intenso de pessoas deixava claro: aquela noite prometia. Foi então que lembramos do detalhe essencial — estávamos sem dinheiro. A ideia era apenas conhecer o espaço externo e voltar em outro sábado. Até que me veio à memória um detalhe salvador: a Arena pertencia a Fábio Góes, meu primo paterno.
Esperamos até ele aparecer e, sem muita cerimônia, pedimos uma cortesia para conhecer o “monumento”. A vergonha ficou de lado — afinal, pedir uma vez não faz mal a ninguém (risos).
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| O sucesso da Arena foi tão grande que até hoje, festas anuais acontecem para relembrar a Boate e suas memórias. |
Ao entrar, os olhos simplesmente brilharam. O padrão da Arena era algo nunca visto antes em Macapá. Luzes impactantes, som potente, acústica impecável — tudo pensado para impressionar. O bar oferecia atendimento de alto nível, com uma ampla variedade de bebidas alcoólicas e não alcoólicas.
E não era apenas uma boate. O ambiente surpreendia. Próximo ao bar, havia um espaço VIP aconchegante, com poltronas, tapetes, um lindo aquário, lustre e detalhes que remetiam à sensação de estar em casa. Um conceito completamente inovador para a época.
Entramos por volta das 23h, enquanto o mid back aquecia os primeiros frequentadores da pista. Clássicos de Rick Astley, Sonia Evans, Big Fun, Kon Kan, Inner City, Steve Allen, Donna Summer, entre outros ícones da house music entre 1988 e 1994, faziam todos viajarem no tempo. Um diferencial absoluto da Arena.
Os DJs Pirão, Diabão e convidados comandavam as pickups até a meia-noite, quando Alain Cristophe assumia o controle da noite. Antes do auge, acontecia um verdadeiro ritual: a pista ficava semi-vazia, o público se posicionava ao redor e uma abertura sonora exclusiva criava a atmosfera perfeita.
De repente, dois canhões de luz projetavam no chão o nome e a logomarca da ARENA. E Alain anunciava, com sua voz marcante:
"A partir de agora, está liberada a pista da Arena!”
Era o sinal. A pista era tomada instantaneamente.
Com dois andares sempre cheios, a Arena pulsava ao som da dance music, cuidadosamente orquestrada por Alain Cristophe, que dominava como poucos as tendências da música eletrônica mundial e o gosto do público local. Alexia, Fábrica, Whitney Houston, Daft Punk, Jenny B, Lara Fabian, entre muitos outros, faziam parte da playlist histórica da casa.
O próprio Fábio Góes também se apresentava, assim como o DJ Arizinho, outro nome forte da residência.
O sucesso foi tão grande que a Arena expandiu seus horizontes. Aos domingos, surgiram as famosas “Pagodeiras da Arena”, reunindo grupos locais e atrações vindas de Belém do Pará.
Quem viveu aquela época certamente se lembra da versão dançante de “Havana”, de Kenny G. A música se tornou o verdadeiro hino da boate, abrindo oficialmente a pista ao som da inesquecível vinheta:
“Arena, na Moral.”
A Boate Arena funcionou até 2004, mas deixou um legado eterno na história cultural de Macapá. Localizava-se na Rua Hamilton Silva, Bairro do Trem. Atualmente funciona a boate Donna pertencente ao próprio DJ Alain Cristophe.
Até hoje, Alain mantém viva essa memória ao promover anualmente uma festa em homenagem à Boate Arena, relembrando os maiores sucessos que embalaram seus sete anos de existência.
Entre tantas lembranças, guardo uma relíquia especial na minha CDteca: um CD da Arena, repleto de músicas icônicas dos anos 80 e 90 — um pedaço vivo da história das noites macapaenses.
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| Cd promocional da Arena. Acervo pessoal. |
Porque, para mim, os verdadeiros Embalos de Sábado à Noite aconteceram ali.
Na Arena!
Nota: Infelizmente, não foi possível encontrar mais arquivos para anexar na matéria, mas no decorrer do tempo, se encontrarmos novos arquivos (imagens e vídeos da época) iremos atualizar, a mesma, e informar a vocês.
Agradecimentos a Fábio Góes e Alain Cristophe!
🎧 Chamada da Boate Arena
▶️ Ouça o áudio:





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