Brega: identidade, sentimento e cultura popular (a dance music da Amazônia)
Para muita gente, a palavra brega ainda carrega rótulos como cafona ou antiquado. Está lá no dicionário, é verdade. Mas, na prática — principalmente quando falamos de música — o brega nunca coube em definições tão rasas. Ele é sentimento à flor da pele, é trilha sonora de histórias reais, de amores intensos, de dores cantadas sem filtro e de festas que atravessam gerações.
Aqui na Rádio 90’s Macapá, falar de brega é falar de memória afetiva. É revisitar um ritmo que marcou profundamente a Região Norte a partir dos anos 1980, especialmente no Pará e no Amapá, onde o brega deixou de ser apenas um gênero musical para se tornar parte da identidade cultural do povo.
Onde tudo começou
O brega nasce nos anos 1960, bebendo diretamente da fonte do bolero e do samba-canção. Era música feita para sentir. Vozes potentes, interpretações carregadas de emoção e letras que falavam de amor sem medo do exagero. Artistas como Nelson Gonçalves e Orlando Dias foram alguns dos grandes responsáveis por pavimentar esse caminho.
Com o surgimento da Bossa Nova e da MPB, o brega passou a ser visto com certo preconceito. Enquanto os grandes centros urbanos buscavam sofisticação, o brega seguia popular, direto e verdadeiro. Mesmo rotulado como cafona, nunca deixou de tocar nas rádios, nos bares, nas festas e, principalmente, no coração do povo. Nos anos 1970, nomes como Waldik Soriano e Reginaldo Rossi ajudaram a consolidar de vez esse estilo que se recusava a desaparecer.
O brega com sotaque amazônico
Foi em Belém do Pará, ainda nos anos 1970, que o brega ganhou um sotaque próprio. O chamado brega paraense surgiu misturando romantismo, dança colada e influências que atravessam fronteiras. Para alguns, veio como desdobramento do brega nordestino. Para outros, nasceu da forte presença caribenha na Amazônia, incorporando elementos de ritmos como o zouk e a salsa.
O fato é que o brega paraense criou identidade própria. Assim como a dance music, ele se reinventou, absorveu influências e dialogou com o tempo sem perder sua essência.
Anos 80, mudanças e reinvenção
Nos anos 1980, o brega falava, principalmente, de amor sofrido, paixões impossíveis e promessas quebradas. Era música para dançar junto, cantar alto e sentir fundo. A partir de 1995, o gênero passou por uma transformação. As melodias ficaram mais elaboradas, os arranjos ganharam nova cara e as letras passaram a flertar com críticas sociais, humor e exaltação da própria Amazônia.
No fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, surgiram novas vertentes que conquistaram o público: tecnobrega, bregamelody, brega-fó e o brega funk. Tudo isso ganhou força nas festas de aparelhagens, o famoso rock doido de Belém, onde som, luz e performance se misturam em um espetáculo único.
Foi nesse cenário que o Calypso explodiu para o Brasil inteiro. Liderada por Joelma e Chimbinha, a Banda Calypso levou o brega paraense para os palcos nacionais e internacionais, tornando-se um dos maiores fenômenos musicais do país.
Flash Brega e Marcantes: trilha sonora de gerações
No Pará e no Amapá, o tempo também ganhou nome. O brega produzido entre 1980 e 1994 passou a ser chamado de Flash Brega. Já as produções a partir de 1995 ficaram conhecidas como Marcantes. Mais do que rótulos, esses nomes carregam memória, nostalgia e pertencimento.
São músicas que continuam vivas, tocando em festas, rádios e encontros familiares. Artistas como Alípio Martins, Mauro Cotta, Betto Douglas, Waldo César — o eterno “Reginaldo Rossi paraense” —, Kzan Nery, Jô Massa, Borba de Paula, Ivan Peter, Frankito Lopes, Adelino Nascimento, Banda da Loirinha, Wanderley Andrade, Alberto Moreno, Banda Xeiro Verde, AR-15, Manu Batidão, entre tantos outros, ajudaram a construir essa história que segue ecoando na Amazônia.
Aparelhagens, DJs e o espetáculo do brega
Não dá para falar de brega paraense sem falar das aparelhagens. Mais do que tocar música, elas criam experiências. Os DJs, além mixar, se tornam mestres de cerimônia, animadores, performers. Com locuções marcantes e presença de palco, transformam cada festa em um evento inesquecível.
O brega no Amapá
O Amapá, por ter pertencido ao Pará no passado, herdou fortemente a cultura paraense. Entre essas heranças está o brega, um dos ritmos mais presentes nas festas populares, nas rádios locais e também nas casas noturnas que funcionaram no estado entre os anos 1990 e 2010.
De forma inédita para os padrões dos chamados ambientes “elitizados”, o brega ocupou espaços diversos, comprovando sua capacidade de romper barreiras sociais e dialogar com públicos distintos. O ritmo embalou bailes, festas comunitárias, clubes e programações radiofônicas, consolidando-se como parte viva da identidade cultural amapaense.
Com esse movimento, surgiram também cantores e grupos tucujus que ajudaram a fortalecer o brega local. Entre os principais nomes, destacam-se: Kzan Nery; Rambolde Campos — que, apesar de nordestino, se considera amapaense de coração —, Banda Moara, Déo Moraes, Jéssica Kandomblé (Jéssica Brasil), Celso Mariano (in memoriam), Os Cabuçus, Jomasan (in memoriam) e Anterinho (in memoriam).
As aparelhagens também ocupam papel fundamental nesse cenário. A animação comandada pelos DJs Gutembergue, Dinho Castelo e Robson marcou época e continuam enlouquecendo os frequentadores dos bailes e do tradicional “rock doido”, criando uma atmosfera única de festa, som alto e identidade popular.
O brega segue vivo
Assim como a dance music que nasceu na era disco, o brega paraense segue vivo, pulsante e em constante transformação. Ele se adapta, se reinventa, mas nunca perde sua essência: emocionar.
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