As danceterias de Fazendinha - parte 1
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| Rua Vila do Matadouro. Foto: Antonio Jr. |
Só quem viveu os anos 80 em Fazendinha entende o peso da nostalgia ao lembrar daquele período que ficou carinhosamente conhecido como “o tempo das brilhantinas”. Era uma época em que o fim de semana era sagrado, as noites pareciam mais longas e a diversão não dependia de telas, curtidas ou notificações. Bastavam música boa, amigos por perto, paquera sincera e histórias que até hoje atravessam gerações.
As noites de sábado em Fazendinha fariam inveja a qualquer geração atual. O grande ponto de encontro era a lendária Cebolândia, uma danceteria simples na estrutura, mas gigante na importância cultural. Ali se dançava, se namorava, se terminava e — muitas vezes — se reatava, tudo embalado pelo melhor do brega paraense, do rock and roll e da discoteca.
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| DJ Ernandes Melo, um dos primeiros Controlistas dos anos 80 em Fazendinha e das danceterias local. |
Quem comandava a pista eram figuras que ficaram eternizadas na memória local: DJ Ernandes Melo, DJ Kurango e o lendário DJ Papa, dono de uma pequena, porém impressionante, aparelhagem. O som não chamava atenção apenas pela potência, mas pelo cuidado estético e pela estrutura — considerada por muitos a primeira grande aparelhagem da Vila do Matadouro. Não era raro ver gente parada, admirando aquele verdadeiro espetáculo sonoro antes mesmo de cair na dança.
Os casais se entregavam sem medo às melodias românticas do brega. Mesmo sem o clássico Love Is in the Air, o amor tomava conta do salão nas vozes marcantes de Maurílio Costa, Leonardo Sullivan, Francis Dalva e Mauro Cotta. Quando “Minha Amiga” começava a tocar, não eram poucos os namoros que ganhavam uma segunda chance.
Os mais ousados tentavam a sorte com as “gatas” da época quando Alípio Martins soltava o inesquecível: “Quero você todinha pra mim”. Mas bastava entrar RPM para o clima mudar. O famoso “olhar 43” denunciava que a cantada não tinha funcionado. Sem drama: o DJ Papa logo resolvia tudo colocando “Designer Music”, do Lipsing, e a pista voltava a ferver.
E quando os abraços ficavam mais apertados e os beijos ameaçavam ultrapassar os limites, os DJs não aliviavam. Vinham a “Melô da Ângela”, lambada internacional que incendiava o salão, e logo depois “Eu Quero Aproveitar a Vida com Você”, de Alípio Martins — o empurrão final para os mais corajosos tentarem o bote decisivo.
Afinal, a noite era uma criança. Mas o dia amanhecia rápido… e a segunda-feira logo chegava, trazendo de volta a rotina de estudos e trabalho.
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| Lendário Som do Papa. Desenho com base nas lembranças rabiscada por Jr. |
Cebolândia: lazer, história e resistência
Foram muitos anos de histórias vividas na Cebolândia, uma sede de lazer que se tornou parte da identidade cultural de Fazendinha. Segundo Ernandes Melo, o nome curioso surgiu porque o espaço funcionava originalmente em uma antiga casa onde trabalhadores do Matadouro Municipal de Macapá salgavam os couros dos bois abatidos para exportação.
Com a desativação do local, vieram as festas.
Os proprietários eram o casal conhecido como Seu Durval (o Pomba Seca) e Dona Branca, pioneiros do bairro. O cheiro característico do antigo uso ainda persistia, mas ninguém se importava. O que valia era o reencontro, a música alta, os amigos e a vontade de viver cada noite como se fosse única.
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| Danceteria O Tabocão. I.A. |
O Tabocão: a festa continua
Em 1988, com o encerramento das atividades da Cebolândia, um novo capítulo da diversão começava: surgia a Sede do Clube O Tabocão, construída em madeira e taboca — planta nativa da região — também de propriedade de Seu Durval.
Funcionando nas noites de sábado e atravessando as madrugadas de domingo, o Tabocão manteve viva a mesma energia da antecessora. Por lá passaram diversos DJs, levando o melhor da New Wave, da Discoteca e da House Music. DJ Curú e DJ Kurango enlouqueciam a galera com clássicos como “Always on My Mind”, do Pet Shop Boys, e “This Is Not a Love Song”, do Public Image Ltd., cujo refrão ganhava uma versão bem regional: “bife, colorau e sal” — arrancando risadas e coro da pista.
Mesmo com a diversidade musical, o brega paraense continuava sendo a alma das festas. Foi ao som desse ritmo que muitos jovens se apaixonaram, se casaram e formaram famílias. Nessa fase, ganharam destaque grandes vozes locais como Borba de Paula, Cassiano Costa e Betto Douglas.
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| DJ Curú (esquerd) e DJ Pepe (direita). Gerações de djs da Fazendinha. |
Maurílio Costa, com seu famoso “bilhete perfumado”, era praticamente o e-mail da época, perfeito para reconciliações amorosas. Já Ivan Peter, com “Minha Lua Amiga”, embalava os corações sofridos que ainda esperavam o amor voltar.
📌 Obs.: Naquela época, ainda não havia o hábito de registros fotográficos, por isso infelizmente não conseguimos imagens das danceterias para mostrar aos nossos leitores. A imagem utilizada é ilustrativa, gerada por I.A., inspirada na memória de como era a Sede do Clube O Tabocão, entre 1988 e 1989.
Conta pra gente — porque essa memória merece continuar viva na Rádio 90’s Macapá.





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